RIO - Berço do ebola, onde o vírus foi identificado pela primeira vez em 1976, a região Centro-Oeste da África também é a origem da pandemia de Aids que se espalhou pelo mundo na segunda metade do século XX, aponta estudo publicado na edição desta semana da revista “Science”. Segundo os pesquisadores liderados por Oliver Pybus, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e Philippe Lemey, da Universidade de Leuven, na Bélgica, a linhagem do vírus HIV, causador da síndrome, que saltou dos macacos para começar a infectar humanos nas selvas de Camarões no fim do século XIX, chegou com migrantes à atual Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC), de onde começou a se alastrar para o resto do planeta a partir do início dos anos 1920.
Transporte ferroviário, um fator
Então conhecida como Léopoldville, Kinshasa era capital do Congo Belga e um importante centro comercial do período colonial, tendo reunido na época fatores que criaram o que os cientistas classificaram como uma “tempestade perfeita” para que o HIV se espalhasse. De acordo com eles, entre esses fatores estavam uma rápida urbanização, uma extensa rede de transporte ferroviário pela qual circulavam cerca de 1 milhão de pessoas anualmente e mudanças culturais relacionadas ao sexo e à prostituição, incluindo a contaminação involuntária de prostitutas com seringas mal esterilizadas em campanhas de saúde voltadas para elas.
— Depois da transmissão original do vírus de animais a humanos, provavelmente por meio da caça ou manuseio da sua carne, houve apenas uma pequena “janela” durante a era colonial belga para que esta linhagem particular do HIV emergisse e provocasse uma pandemia — diz Pybus. — Já nos anos 1960, os sistemas de transporte, como as ferrovias — que permitiram que o vírus se alastrasse por grandes distâncias —, estavam menos ativos, mas aí as sementes da pandemia já tinham sido plantadas na África e além.
Para identificar o local e a época que representam o “marco zero” da pandemia de Aids, os pesquisadores analisaram o genoma do vírus da linhagem conhecida como HIV-1 grupo M (HIV-1M), retirado de várias amostras de tecidos e sangue coletadas ainda na era colonial. Eles então puderam montar uma árvore filogenética desta linhagem, sobre a qual aplicaram um “relógio molecular” com base na conhecida taxa de mutação de retrovírus como o HIV para datar a origem de suas ramificações. Segundo os pesquisadores, de Kinshasa o vírus viajou junto com o trabalhadores da mineração por rios e trens centenas de quilômetros para Sudeste até a cidade de Lubumbashi, onde chegou em 1937, e para Nordeste até Kisangani, onde foi registrado em 1953. No estudo, eles também puderam determinar que o subtipo B do HIV-1M, o principal causador da pandemia global, surgiu em Kinshasa em 1944 e alcançou os EUA nos anos 1960 com imigrantes do Haiti que levaram a doença da África para seu país.

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